Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Paulo Henriques Britto – “Da metafísica”

Ser parte de alguém ou algotão grande que não se entenda:toda crença, ao fim e ao cabo,se resume a essa lenda – o mais rematado dislate,coisa jamais entendida,que eleva ao sumo quilateo caco mais reles de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/11/2018
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Miguel-Manso – Na morte da avó

não bastasse a humilhação pública de morrerespera-se do corpo que cumpra com indiscutívelpompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velórioa presença inconveniente dos agentes funeráriosos adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisacerimônia (não há muito a dizer, sejamos honestose soa até a…
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terraPor cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomesFamiliares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros– música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campasao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,entre…
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Jorge de Sena – Nasceu-te um filho

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,jamais, a extrema solidão da vida.Se a não chegaste a conhecer, se a vidata não mostrou – já não conhecerás a dor terrível de a saber escondidaaté no puro amor. E esquecerás,se alguma vez adivinhaste a paztraiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que iluminauma paisagem mais distante…
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David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Era a primeiraVez que nus os nossos corposApesar da penumbra à vontade se olhavamSurpresos de saber que tinham tantos olhosQue podiam ser luz de tantos candelabrosEra a primeira vez cerrados os estoresSó o rumor do mar permanecera em casaE sabias a sal, e cheiravas a limosQue tivesses ouvido o canto das cigarrasHavia mais que céu…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Manuel António Pina – de “Cuidados Intensivos”

I “A esta hora e neste sítio(miocárdio ventricular esquerdo)é a abstracta vida que me assalta.Eles não sabemque o seu coração pulsa,ferido, no meu coração,que a minha dor alheiavagarosamente mataos seus sonhos, os seus sentidos,os seus dias visíveis e invisíveis,a linha dos telhadosao longe sobre o céu.Como saberiam(com que palavras exteriores?)que existemdentro de mimde um modo…
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Ruy Belo – Através da chuva e da névoa

Chovia e vi-te entrar no marlonge de aqui há muito tempo jáó meu amor o teu olharo meu olhar o teu amorMais tarde olhei-te e nem te conheciaAgora aqui relembro e pergunto:Qual é a realidade de tudo isto?Afinal onde é que as coisas continuame como continuam se é que continuam?Apenas deixarei atrás de mim tubos…
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Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]
![Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/jhp-50.jpg)
Fica e é só o que fica: o primeiro encontroo primeiro beijo numa gare desertao mar por líquida ou aérea testemunha depois a longa gestação do adeusúnico e verdadeiro adeuso subtil envenenamento da memória
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Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]
![Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/fire_flames-wallpaper-1920x1080-1.jpg)
Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foiverdade — que não amei ninguém depois de ti nemo meu corpo procurou nunca mais outro incêndioque não fosse a memória de um instante juntodo teu corpo; e que deixei de ler quando partistepor não suportar as palavras maiores longe da tua boca;e que tranquei os…