Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caídode tamanha altura em mimantes de ter subidoàs alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorrisocomo de uma súbita ausênciaou como se tivesse lá ficadoe outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorrisoa minha vida pareciaa vida de outra pessoaque fora de mim a vivia. E a que eu regressava lentamentecomo se…
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Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

“Por causa de uma ave”, um poema de Fernando Pinto do Amaral que transforma o esqueleto de um pássaro em revelação brutal da mortalidade, ligando a perda íntima à consciência inquieta da própria finitude.
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Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandezdeu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamenteroxo, evocava os últimos dias da sua vida,quando se demorava o menos possível nos cafés debarcelona, perseguido até por si próprio.De facto a loucura procurava-o lentamente.Durante a noite, em tempo de lua cheia, a suasombra por vezes corria pelo silêncio…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundoQue logo se desfaz e se reconstróiComo uma linguagem de gestos que o universoElabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundoHá suficiente espaço para se fazer o bem ou o malPorque é assim mesmo que acontece: o mal ou o bemInfinitesimais, germinam e brotam no…
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Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundofazem sentido. Senão não teriasentido elas serem. Ou estarem. Tudomais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nuncafaz parte de sempre, assim como zeroé apenas um número entre outros números.Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é só mais redonda que as outras…
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Manuel António Pina – Numa Estação de Metrô

A minha juventude passou e eu não estava lá.Pensava em outra coisa, olhava noutra direção.Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?Provavelmente professoras de Alemãoem colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-iaamado de um amor imprudente e impudente,como…
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Bruna Beber – romance em doze linhas

“Romance em doze linhas”, um poema de Bruna Beber que condensa o ciclo inteiro do amor — da urgência do encontro ao apagamento da memória — na cadência inquieta de uma única pergunta.
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Sérgio Jockyman – Os votos

Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis.E que em…
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Manuel António Pina – As vozes

A infância vempé ante pésobe as escadase bate à porta – Quem é?– É a mãe morta– São coisas passadas– Não é ninguém Tantas vozes fora de nós!E se somos nós quem está lá forae bate à porta? E se nos fomos embora?E se ficamos sós? REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/02/2019 Mais…