Categoria: Nelson Santander – Traduções
-
Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o…
-
Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas

Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às…
-
César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é…
-
Isabel Bono – O futuro acabará por chegar

desperdiçávamos o tempoorganizando num álbum as fotos do verãopara um dia olhá-las com nostalgia acumulávamos bolinhas de gude pedraslivros cartas poemas adiávamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quêainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando en un álbum las fotos del verano…
-
César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças sob a terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,consegui sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander Album…
-
César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé…
-
Mario Benedetti – Angelus

Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira…
-
Miquel Martí i Pol – No ano que vem

No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder…
-
César Cantoni – Uma Arte Invisível

O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander…
-
Amalia Bautista – O Anjo Perplexo

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança.…