Mês: junho 2019
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Ferreira Gullar – Verão

Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo…
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Czesław Miłosz – Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis

Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da…
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Walt Whitman – Aos que Falharam

Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados…
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Adelaide Ivánova – um poema pra italo

a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não…
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Nicolás Guillén – Um poema de amor

Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar…
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Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn…
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Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
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Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda…
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Manuel António Pina – Café do molhe
Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)…
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Konstantinos Kaváfis – Velas

Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo…