Tag: Memória
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Cassiano Ricardo – Depois de Tudo

Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
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Mario Benedetti – Em Pé

Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé…
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Mario Benedetti – Lento mas vem

Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já…
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Sylvia Plath – A Redoma de Vidro (excerto)

“Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era…
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Cacaso – Jogos Florais

I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o…
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Angela Melim – Meu pai nos abandonou

Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
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Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do…