Tag: Memento Mori
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Patrick Philips – Matinê

Após a biópsia,após a cintilografia óssea,após a consulta e o choro, por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,nem mesmo minha irmã,porque acontece que eles tinham ido ao cinema.Passava uma tragédia,um épico, mas no fim eles foram de comédia,com suas cocase pipocas, a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,o velho maridocobrindo o ouvido com a mão, enquanto…
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Marie Howe – A menina

Tão perto do fim da minha vida fértil esem filhos — se eu pudesse me lembrar de um dia em que fui inteiramente meninae ainda não mulher — mas não acho que tenha havido um dia assim para mim. Quando olho para a menina que fui, escorrendo em seu maiô,ou andando de bicicleta, pedalando com…
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Homero Aridjis – Pela Porta Verde

Pela porta verde Para Eva Sofia Sou um indocumentado da eternidade.Sem papéis, ultrapassei as fronteiras do tempo.Detido pelos agentes de imigração do nascimentoe da morte, lancei-meao tabuleiro de xadrez dos dias.Fiscais astutos, em busca de lembranças valiosas,vasculharam minha bagagem de sombras.Nada a declarar. Nada a lamentar.Passei pela porta verde. Trad.: Nelson Santander Mais do que…
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Idea Vilariño – Não mais

Não mais seránão maisnão viveremos juntosnão criarei teu filhonão coserei tua roupanão te terei à noitenão te beijarei ao partirnunca saberás quem fuipor que outros me amaram.Não chegarei a saberpor que nem porque nuncanem se era verdadeiroo que disseste que eranem quem fostenem o que fui para tinem como teria sidovivermos juntosamarmo-nosesperarmo-nosestarmos juntos.Agora não sou…
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Jim Harrison – Transformação

Nenhum lugar é o mesmo de ontem.Nenhum de nós é o mesmo de ontem.Por fim, morremos pela exaustão da transformação.Este júbilo celular em declínio é compartilhadopelo vento, insetos, aves, ursos e rios,e talvez pelos buracos negros no espaço galácticoonde nossas almas serão todas reunidas em um invisíveldedal de antimatéria. Mas não vamos nos precipitar.Sim, as…
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Joan Margarit – Monumentos

O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição…
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Tomas Tranströmer – Postais Pretos

I O calendário está repleto; o futuro é incerto.Os fios entoam uma canção folclórica apátrida.A neve cai sobre o mar cinzento. Sombrascombatem no cais. II No meio da vida, eis que a morte chegae tira nossas medidas. Essa visita logoé esquecida, e seguimos com a vida. Mas a vestesegue sendo silenciosamente cosida. Trad.: Nelson Santander…
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Manuel António Pina – Corpo Presente

Toda a casa suspenderaa respiraçãoincapaz de contertamanha desproporção, e eu próprio desapareceraalgures na sala, entre a tua vida e a tua morte.Atenderam o telefonefalando baixo, temendo que regressassecada coisa do teu lugarsem estar prontos aindapara a tua solidão. Faltava muitopara podermos perceber,muitos passos para chegarmosaonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança,da…
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Paul Guest – 2020

Talvez seja preciso abraçar a decepção.Da maneira como você não consegue dormir à noite,sonhando com a poeira nos móveise o agradável odor de madeira compensadae como é a sensação de descascar a peledo polegar. Talvez você deva começaraquele romance perfeito que irásalvá-lo. Livrar você das rubras garrasde um monstro que está bem alialém de sua…