Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Miguel Torga – Agenda

Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
-
Augusto de Campos – O Vivo

Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto…
-
Ana Martins Marques – Há estes dias em que pressentimos na casa…

Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias…
-
Manuel Bandeira – Soneto Inglês n. 2

Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem…
-
Ferreira Gullar – Nova Concepção da Morte

Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que…
-
Ferreira Gullar – Filhos

A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não…
-
Ferreira Gullar – Teu Corpo

O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como,…