Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas…
-
Carlos Drummond de Andrade – Morte no Avião

Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de…
-
Carlos Drummond de Andrade – Uma Hora e mais Outra

Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes…
-
Carlos Drummond de Andrade – Coisa Miserável

Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe,…
-
Machado de Assis – Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que…
-
Carlos Drummond de Andrade – Versos à Boca da Noite

Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino…
-
Affonso Romano de Sant’Anna – Que País é Este?

Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant’Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
-
Manuel Bandeira – O Rio

Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
-
Andrew Marvell – To His Coy Mistress, em 5 traduções

PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio…