Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que…
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Carlos Drummond de Andrade – Fragilidade

Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em…
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Carlos Drummond de Andrade – Ontem

Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
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Carlos Drummond de Andrade – Viagem na Família

A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo,…
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Carlos Drummond de Andrade – A Noite Dissolve os Homens

A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é…
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Carlos Drummond de Andrade – Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra…
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Carlos Drummond de Andrade – Inocentes do Leblon

Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com…
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Carlos Drummond de Andrade – José

E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não…
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Mário Chamie – Fantasma

Um fantasma ausentepõe tijolo sobretijolo ao seu redor. Primeiro mede o terrenoDivide o espaço.Calca com o péa plantaque não floresce.Mas que crescesob estacasde cimento. Depois, a ausênciase preenche.O fantasma movea cal, a pedra, a pá.O fantasma moveo corpo já presentedo lugar em que está. Presente e ausente,um fantasma se acasalaMove seu corpode carne e osso.Come…