Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhospelo meio do pinhal, direcções espantosamenteprecisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,havia talismãs pendurados nas árvores e mercúriopara tratar certas lesões, uma peça vitaldo equipamento. Havia girassóis à volta da casae as palavras imortais dos espantalhos, uma formade evitar que endoidecêssemos. E…
-
Ana Martins Marques – de “Três Postais”

Leia “São Paulo” (de ‘Três Postais’), de Ana Martins Marques, um poema delicado sobre memória amorosa, ausência e a forma como os lugares preservam aquilo que perdemos.
-
Ferreira Gullar – Poema

Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos–da–ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó– dos–andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste…
-
Manuel António Pina – Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos,tu sentada diante da TVe eu escrevendo isto, não sei o quê,como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceudo nosso amor como uma inevitabilidade,uma saudade pousada agora na mão de Deusexistindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos uma rota circularatravés da curvatura do…
-
Haroldo de Campos – Servidão de Passagem

forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é…
-
Manuel António Pina – Instituto de Oncologia

Estes cumprem o rito antigo mantendoa chama da morte acesa na obscura água da vidae engrossam o rio dos mortoscomo pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu,e depois fechamo-las para detero rio da mudança fluindo por entre os dedos,porque éramos os menos fortes e os menos densos. Frágeis mãos dispersaram o…
-
Manuel António Pina – Depois

Primeiro sabem-se as respostas.As perguntas chegam depois,como aves voltando a casa ao fim da tardee pousando, uma a uma, no coraçãoquando o coração já se recolheude perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousarcom o restolhar de asas no telhado?A dúvida agitaos cortinadose nos sítios mais íntimos da vidaacorda o passado.Porquê, tão tardo,…
-
Ana Martins Marques – História

Leia “História”, de Ana Martins Marques, um poema original e filosófico sobre tempo, memória e as múltiplas temporalidades presentes no cotidiano.
-
Marcia Vinci – Mãe Solteira

dadeiraparideiranutrizcriadeiratoda mãeé sozinhatoda mãeé solteira REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/03/2018
-
Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para…