Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Paulo Henriques Britto – de “Fim de Verão”

VII Eis que acabou o tempo dos inícios, tendo durado o exato suficiente pra formação do hábito (ou vício) de habitar não um mísero presente, mas um futuro sempre a exigir rigorosíssimo planejamento, até que se escute a ficha cair: o tempo se esgotou. Chegou o momento de enfim viver conforme o planejado, ou então…
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Paulo Henriques Britto – de “Oito sonetos entrópicos”

I Deixar de ser é coisa natural,como é natural ser. Pensando bem(ou só pensando, seja bem ou mal),o que haverá de natural, porém,em ser o que se é, e não ser, apenas?Não haverá um toque de artifícioimplícito em escamas, pelos, penas,nos ossos que sustentam o edifíciotodo, na fome que impele essa máquinafuriosa e cega, essa…
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Paulo Henriques Britto – Bálsamo

Seja hoje um dia igual a qualquer outro,um dia besta, esvaziado e amorfo, o tipo de data que é esquecidaantes mesmo de virada a folhinha, e esteja você completamente imersoneste dia, como um peixe dessas espécies das regiões abissais, isentas de luz,longe do ar e seus azuis, que nas funduras de silêncio e noitefalta não…
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Paulo Henriques Britto – Sobre o real

Há motivos bem sérios para nãose acreditar em nada de específico,quanto mais em geral. Pois se a razãotem algum valor, é ponto pacífico que conclusões geradas pela mentesó podem validar ulterioresconclusões, porém rigorosamentenada nas regiões inferiores, menos nefelibatas, da supostarealidade, em que as coisas têm pesoe consistência. Aqui tudo é uma aposta mais ou menos…
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Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morridoe talvez nesse livro não escritonem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aquelesque a morte separou e um delesescreva agora isto como seacordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu),e talvez então tu, eu, esta impressãode estranhidão, de que tudo perdeude…
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Paulo Henriques Britto – de “Ao Leitor”

V Sofro dos nervos, como se diziaantigamente — ou, mais antigamenteainda, mergulho (mesmo de dia)numa “noche oscura del alma” (ou “mente”, para aliviar o peso asfixiantede dois milênios de neura cristã),estado em que a existência por um instante(que às vezes dura toda uma manhã) é um mal desnecessário, uma arrastada(talvez interrompível) epopeiasem herói — e…
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Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta peleque cobre a minha mãocomo uma luva?Que vento é esteque sopra sem soprarencrespando a sensível superfície?Por fora a alheia cascadentro a polpae a distância entre as duasque me atropela.Pensei entrar na velhicepor inteirocomo um barcoou um cavalo.Mas me surpreendojovem velha e maduraao mesmo tempo.E ainda aprendo a viverenquanto avançona rota em…
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Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem…
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Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempretiveram um jeito quase póstumode existir: guardar o lumeem silêncio, comer depois deservir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destinopara lerem os caminhos perdidose coleccionavam a abdicaçãoem caixinhas de folha, entre bilhetescaducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a vida toda por uma vidapróxima, de alma presa…
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais…