Categoria: Poema
-
Faith Shearin – O que eu gosto

Não da festa em si — um turbilhão de momentos desconfortáveis e risosque, na verdade, querem dizer outra coisa. Não do momento logo após o fimda festa, quando nos jogamos no sofá, pratos espalhados por toda parte,bitucas de cigarro flutuando no refrigerante, um único pedaço intocado de torta sobre a mesa de centro. O que…
-
Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz…
-
Thomas Lux – Irreconciliabilidade

Não importa o que você faça,não é possível retê-lo por muito tempo,nem trazê-lo de volta. O céu, o céu vazio,quase azul, as casas modestas do sono,cobertas de musgo, irão chamá-lo. Não importa o quanto você ame,este amor vai passar, vai passar,seus amigos imortalizados, partiram, se perderam. Incandescem os verãose os anos, e tudo o que…
-
Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandezdeu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamenteroxo, evocava os últimos dias da sua vida,quando se demorava o menos possível nos cafés debarcelona, perseguido até por si próprio.De facto a loucura procurava-o lentamente.Durante a noite, em tempo de lua cheia, a suasombra por vezes corria pelo silêncio…
-
Kwame Dawes – Solidão

Tenho voltado a conversar com árvores em pleno inverno; não com as das bordas,aquelas seguras, contemplando a rodovia; mergulho fundo, onde a neve é em pó, cristalina sob a luz. Dialogamos, os ramos roçam uns nos outroscomo insetos sibilantes o frio acalma até meu coração inquieto;aqui, o silêncio é absoluto. A cada passo, sou surpreendido…
-
Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]
![Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2024/01/leonardo_diffusion_xl_create_an_artistic_representation_of_a_s_2.jpg)
Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na…
-
Maureen Seaton – Preparem-se para dias melhores

Preparem-se para dias melhores — Virgilio, Eneida Não vou me guardar para dias melhores.Vou me consumir agora – e depois vou me consumir novamente amanhã.É por isso que mantenho os olhos abertos a noite toda e meu coração se precipita em direção às estrelas.Para ver quais decidem permanecer imóveis e criar uma constelação ao meu redor…
-
Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você…
-
Li-Young Lee – O grande relógio

Quando o grande relógio da estação parou,as folhas continuaram a cair,os trens continuaram a circular,o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais comprido e mais negro,e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo. Não consigo ver o ano no calendário da estação.Dormimos sob os ponteiros parados do relógioaté a manhã,…
-
Nicanor Parra – Esquecimento

Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem…