Categoria: Poema
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais…
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Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer após LInda Hogan Nada quer sofrer. Nem o ventoque arranha contra a encosta. Nem o penhasco sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quersofrer o pisoteio bruto de quem a ignora. As árvores não querem sofrer o machado, nem versuas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. …
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Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhospelo meio do pinhal, direcções espantosamenteprecisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,havia talismãs pendurados nas árvores e mercúriopara tratar certas lesões, uma peça vitaldo equipamento. Havia girassóis à volta da casae as palavras imortais dos espantalhos, uma formade evitar que endoidecêssemos. E…
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Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula

A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouviro vento, como encontrar sentido em encher o tanque, como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeua perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercíciosque abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos avôs.…
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Ana Martins Marques – de “Três Postais”

Leia “São Paulo” (de ‘Três Postais’), de Ana Martins Marques, um poema delicado sobre memória amorosa, ausência e a forma como os lugares preservam aquilo que perdemos.
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Wendy Cope – Em um trem

O livro que estou lendo repousa em meu joelho. Você dorme. Lá fora é tão bonito —campos, pequenos lagos e árvores de invernosob o sol de fevereiro,cada estacionamento um brilhante mosaico. Longos e radiantes minutos,sua mão na minha mão,ainda quente, ainda quente. Trad.: Nelson Santander On a Train The book I’ve been readingrests on my…
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José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruasabsorto nos ecos das pessoas,distante até de seus pensamentos.Não chove, não abre o seu guarda-chuva,mas, como sempre, molham-senão só seus sapatosmas também sua vida, porque às vezesnão se lembra que o mundo o reclama.Caminha como quem não sabe para onde,a cada passo crê estar sozinho,e mais distante das outras pessoas,por isso chega tarde…
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Ferreira Gullar – Poema

Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos–da–ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó– dos–andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste…
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Manuel António Pina – Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos,tu sentada diante da TVe eu escrevendo isto, não sei o quê,como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceudo nosso amor como uma inevitabilidade,uma saudade pousada agora na mão de Deusexistindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos uma rota circularatravés da curvatura do…
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Finn Butler – Marinho

Todos os que o amedrontam são sessenta e cinco por cento água.E todos os que você ama são feitos de poeira estelar, e eu sei queàs vezesvocê nem consegue respirar profundamente,o céu noturno não é seu lar evocê já chorou sozinho até dormir tantas vezesque chegou aos seus últimos dois por cento, mas nada é…