Mês: setembro 2019
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José Paulo Paes – Elogio da Memória

O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
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Ruy Belo – Missa de aniversário

Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo…
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Luis Cernuda – Os espinhos

Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha.…
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Luís de Góngora – Estamos desperdiçando a páscoa, moças

Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes…
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José Régio – Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta:…
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Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os…
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Ferreira Gullar – Aqui e agora

1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a…
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Eugénio de Andrade – O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem…
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Joan Margarit – No álbum

És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com…
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Manuel António Pina – As Coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência…