Mês: janeiro 2019
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César Vallejo – Paris, Outubro de 1936

De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna,…
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Maria do Rosário Pedreira – Ondas

Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de…
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Roger Wolfe – O amor, suponho

“O amor, suponho”, um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
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Ian Hamilton – Pai, Morrendo

Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você…
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Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça…
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Manuel António Pina – A Canção dos Adultos

Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose…
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Rui Pires Cabral – Recomeço

O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga…
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Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O…
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Abel Silva – O Poço

A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto…