Tag: Vida
-
Rudyard Kipling – Se

Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre…
-
Cassiano Ricardo – Ode Pastoril

A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o…
-
Friedrich Hölderlin – As Parcas

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração,…
-
Jorge Luis Borges — Pátio

Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o…
-
Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de…
-
Miguel Torga – Agenda

Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
-
Ferreira Gullar – Despedida

Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu…
-
Cassiano Ricardo – Dedicatória

I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um…
