Tag: crítica
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Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III

homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político —…
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Cacaso – Jogos Florais

I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do…
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Cassiano Ricardo – Morrer não será dormir

Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo…
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Vinicius de Moraes – Soneto de Maio

Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso…
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Humberto Gessinger – Terceira do Plural

Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar!…
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Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas…
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José Paulo Paes – Revisitação

Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar.…