Tag: Ausência
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A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas

1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu…
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Jorge Teillier – Blue

Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças…
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Otto Renê Castillo – Os Amantes

“Os Amantes”, um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a…
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Rosario Castellanos – Destino

Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos…
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Ana Hatherly – A Verdadeira Mão

A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta…
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Affonso Romano de Sant’Anna – Eppur Si Muove

Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala…
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Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa —…
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Mário Chamie – Fantasma

Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do…
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Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de…