Categoria: Paulo Henriques Britto
Paulo Henriques Britto: a forma da desconfiança
Em “Oficina”, escrever começa sem grandeza. Não há musa, revelação ou necessidade de exprimir uma interioridade excepcional. Há restos de linguagem, frágeis teias que se tenta estender sobre alguma coisa, palavras usadas que se combinam enquanto o poema procura descobrir para que servem. O trabalho pareceria quase inofensivo se, no meio dele, não surgissem elementos que ninguém chamou: uma palavra, um ritmo, uma música que invade a prosa e obriga a frase a mudar de direção. O escritor queria um rio retilíneo de sentido; a linguagem põe pedras no caminho, salienta o que parecia irrelevante, turva uma passagem transparente, desvia o curso. Aquilo que deveria obedecer começa a produzir acontecimentos.
Talvez seja uma das melhores portas de entrada para Paulo Henriques Britto porque nela se desfaz uma oposição demasiado fácil. De um lado estaria o poeta da técnica, do metro, da rima, do soneto, das formas cuidadosamente construídas; de outro, a experiência confusa, o desejo, a memória falha, o corpo que envelhece e a morte. Mas a forma, nessa poesia, não é a fortaleza erguida contra a desordem. É uma maneira de entrar nela. O limite produz acidentes, a regra força encontros, a rima chama palavras que o pensamento sozinho talvez não convocasse. O poema cria uma pequena área de controle e logo descobre que nem ali controla tudo. Sua precisão não elimina o acaso: oferece-lhe condições para trabalhar. O próprio Britto, em entrevista concedida a Ramon Ramos e republicada no Singularidade Poética, formula de maneira exemplar essa relação: “A forma fixa, para mim, é uma espécie de disciplina, sem dúvida, mas é também, e principalmente, uma fonte de ‘inspiração’.” A restrição, portanto, não chega depois do poema para organizá-lo: pode ser aquilo que faz o poema encontrar o que ainda não sabia que procurava.
Faça caber. Depois desconfie
É por isso que o gosto de Britto pelas formas herdadas nunca deveria ser confundido com nostalgia de uma ordem perdida. O soneto pode impor proporções, a métrica pode decidir o tamanho do passo, a rima pode obrigar duas palavras a se reconhecerem, mas nada disso garante estabilidade ao que está sendo dito. Muitas vezes acontece o contrário. Quanto mais bem ajustado parece o recipiente, mais nítido se torna aquilo que não cabe nele. A construção não resolve a experiência; permite observá-la sob pressão.
Em “Ao Leitor”, um sofrimento que poderia pedir a solenidade da noite escura da alma é atravessado por nervos, medicamentos e pelo rigor do soneto. A passagem é engraçada porque mistura registros que a tradição costuma manter separados, mas o humor não dissolve o mal-estar. A farmacopeia e a forma poética são respostas muito diferentes à mesma necessidade: fazer alguma coisa com aquilo que nos acontece. Nenhuma promete salvação. Ambas apenas tornam o sofrimento, por algum tempo, manejável. A comicidade impede a voz de transformar a própria aflição numa prova de grandeza; o soneto impede que o desconforto se espalhe sem medida. O resultado não é frieza, e sim uma emoção submetida a condições rigorosas para não se tornar retórica.
Essa convivência entre regra culta e fala cotidiana aparece de maneira ainda mais explícita em “Horácio no Baixo”, uma espécie de paródia literária — ou, mais precisamente, uma recriação coloquial e contemporânea — da célebre Ode 1.11 de Horácio. No poema latino, dirigido a Leucônoe, o poeta recomenda que não se procure conhecer pelos astros aquilo que o futuro reserva, que se aceite a brevidade da vida e que se aproveite o presente: é dali que vem o carpe diem que atravessaria séculos de tradição literária. O Singularidade permite acompanhar esse diálogo diretamente em duas versões muito diferentes da ode: “Ode 1/11”, na tradução de Nelson Ascher, e “Ode XI, I”, na versão quase visual de Augusto de Campos. Britto transporta aquela antiga disciplina para o bar: entram o chope, a mãe de santo, o mapa astral, o livro de autoajuda e uma irreverência muito brasileira. O gesto não ridiculariza Horácio. Ao aproximá-lo da fala comum, devolve ao poema antigo sua necessidade concreta: o amanhã continua incerto, o tempo continua passando e ainda precisamos decidir o que fazer com a tarde que temos. A tradição permanece viva justamente porque pode perder a gravata.
A coloquialidade, portanto, não serve apenas para facilitar o acesso a uma poesia intelectualmente exigente. Ela participa de sua ética. Toda vez que uma abstração ameaça ganhar altura excessiva, uma palavra comum pode puxá-la de volta para o chão. Toda vez que a forma parece exibir sua perfeição, uma inflexão oral lembra que ali ainda há uma voz sujeita a hesitar, corrigir-se, fazer piada e contradizer o próprio argumento. Britto não abandona a inteligência; impede que ela se transforme em autoridade.
A frase corrige a frase
Poucos poemas tornam isso tão evidente quanto “Nenhum Mistério”. O título já retira da leitura uma promessa antiga: não haverá revelação escondida atrás dos acontecimentos. A matéria disponível é pequena — restos, migalhas, uma história cuja banalidade parece conhecida antes mesmo de terminar — e, no entanto, alguma substância precisa ser extraída dela. Continuamos lendo não porque esperamos uma chave final, mas porque não existe caminho alternativo à própria travessia. A ausência de mistério não produz segurança. Retira apenas a esperança de que alguma explicação, no fim, reorganize retrospectivamente tudo o que veio antes.
O poema avança por afirmações que se submetem imediatamente à possibilidade de correção. Nada parece autorizado a permanecer intacto apenas porque acabou de ser dito. A própria posição das coisas resulta de acidentes e escolhas em número impossível de reconstruir; depois de remover as grandes explicações, sobra algo muito menos confortável: consciência e solidão. Mais adiante, o corpo começa a desertar. Mãos, olhos, pés e rosto deixam de formar uma unidade obediente, e a consciência que antes interrogava o mundo precisa observar também a dissolução de seus instrumentos. A clareza chega longe o bastante para descobrir que não é soberana nem mesmo sobre aquilo de onde fala.
Em “Caderno”, essa estrutura assume uma forma quase cômica. Uma tentativa falha, depois outra, depois outra ainda; chega um momento em que desistir já não é alternativa porque o próprio fracasso adquiriu continuidade suficiente para tornar-se uma vida. Há humor no cálculo absurdo das probabilidades e no espetáculo da própria queda, mas a piada contém uma percepção mais dura. Existir não é acumular sucessos até formar uma narrativa coerente. É continuar fazendo alguma coisa com uma série de resultados que raramente confirmam o projeto inicial.
A ironia de Britto nasce muitas vezes desse intervalo entre o que a frase gostaria de estabelecer e aquilo que a frase seguinte a obriga a admitir. Por isso ela não é mero comentário sarcástico sobre o mundo. Atua na sintaxe do pensamento. Uma proposição se adianta, outra limita seu alcance; uma imagem parece oferecer repouso, outra remove o apoio; um conceito se apresenta com segurança e logo precisa prestar contas ao corpo, ao acaso ou à linguagem. O poema pensa não porque expõe ideias prontas, mas porque dramatiza o momento em que uma ideia encontra resistência.
Alvenaria de ar
Essa resistência se torna especialmente intensa quando o problema é a própria linguagem. Em “Crepuscular”, a voz chega tarde a um território onde tudo parece já ter sido dito, inclusive a impossibilidade de dizer. Não existe sequer a saída limpa do silêncio, porque negar a linguagem exige linguagem e declarar sua insuficiência acrescenta mais uma frase ao acervo de frases do mundo. A palavra é tardia, repetida, contaminada pelo uso anterior; ainda assim, cada repetição ocorre em outra boca, outro momento, outro corpo. O poema se constrói nesse paradoxo: nenhuma palavra é inteiramente nova, mas nenhum uso é simplesmente idêntico ao anterior.
Daí uma das imagens mais precisas dessa poética: a palavra como “alvenaria de ar”. Há construção e há precariedade na mesma expressão. Alvenaria sugere cálculo, encaixe, resistência, trabalho acumulado; o ar retira imediatamente a segurança da parede. A poesia pode construir uma arquitetura, mas com matéria que não se deixa possuir. É justamente por isso que a consciência formal de Britto não conduz ao culto autônomo da linguagem. Se as palavras fossem suficientes em si mesmas, não haveria motivo para tanta desconfiança. Elas importam porque tentam alcançar alguma coisa que sempre conserva uma parte fora delas.
Lacrimæ rerum radicaliza essa distância. A dor deixa de ser privilégio da consciência humana e parece recuar até uma matéria anterior à vida, como se aquilo que existe carregasse uma história que nossos instrumentos conceituais já chegam tarde demais para compreender. A inteligência humana, tão eficiente em formular sistemas, encontra uma opacidade arcaica que não se oferece à tradução completa. O poema não abandona a tentativa de compreender; apenas recusa a fantasia de que compreender significa pôr tudo ao alcance.
Em “Duas autotraduções”, o problema retorna numa escala íntima. A memória não recupera uma experiência como quem abre um arquivo intacto. Introduz filtros, substitui detalhes, perde elementos, produz versões plausíveis. Lembrar se aproxima de traduzir porque ambas as operações preservam justamente por meio de alterações. O passado continua sendo nosso, mas não está mais disponível em sua primeira língua. Há nessa ideia algo mais importante do que uma metáfora profissional do tradutor-poeta: ela transforma a própria identidade numa atividade editorial. O sujeito que diz “eu fui” já trabalha sobre um original ao qual não pode voltar.
Essa é uma razão pela qual a insuficiência da comunicação, em Britto, raramente conduz ao silêncio absoluto. Se toda formulação perde alguma coisa, formular continua sendo a única maneira de fazer essa perda adquirir contorno. A linguagem fracassa, mas seu fracasso não é vazio: produz versões, aproximações, ritmos, restos transmissíveis. Um poema não entrega a experiência intacta a outra pessoa. Cria uma forma na qual duas insuficiências — a de quem fala e a de quem lê — podem por algum tempo se encontrar.
Aquilo que não nos pertence
Seria fácil, a partir daí, imaginar uma poesia fechada no circuito da linguagem e da inteligência. O corpo impede essa leitura. Ele aparece repetidamente como aquilo que não aceita ser reduzido a problema verbal: deseja, envelhece, adoece, perde coordenação, sente prazer, carrega vestígios. E é no corpo que várias das formulações mais abstratas de Britto encontram seu limite.
“Soneto Inglês” — soneto inglês, em sua configuração mais comum, é uma forma de 14 versos composta por três quartetos e um dístico final — começa num mundo do qual já não se espera muito: um espaço pequeno de privacidade, algum sexo sem complicação, literatura suficientemente difícil para ocupar o tempo. É quando a expectativa foi reduzida a quase nada que o amor aparece como surpresa. A estrutura é importante porque impede que essa aparição seja lida como recompensa providencial. Não houve preparação moral, amadurecimento exemplar ou confiança recompensada. A experiência chega por acaso e altera justamente uma pessoa que já reorganizara a vida de modo a não depender dela. A forma regular do soneto abriga uma irrupção que ninguém administrou.
Essa surpresa torna mais dolorosa “Nenhuma Arte”. Ali, aquilo que os deuses do acaso concedem pode ser retirado pelos mesmos deuses. O corpo conserva vestígios do desejo e o tempo perdido permanece inscrito na pele, mas nenhuma experiência, por intensa que tenha sido, se converte em propriedade. “Nada que te pertence é teu”: a formulação desmonta de uma vez a gramática da posse. O corpo é nosso apenas enquanto está acontecendo; o amor é nosso sem que possamos retê-lo; o passado nos constitui sem permanecer disponível; a consciência acompanha tudo isso sem adquirir direitos sobre sua duração.
O poema chega então à ausência, mas recusa transformá-la em sistema. Não existe teoria capaz de substituir a prática de perder. E há um paradoxo decisivo: nomear a ausência já é fazer alguma coisa com ela, portanto afastar-se minimamente de sua experiência bruta. Quem consegue construir uma frase já conquistou uma distância que o sofrimento absoluto talvez não conceda. A poesia não reproduz o silêncio de quem está inteiramente dentro da perda. Começa quando alguma forma, por mínima que seja, tornou-se novamente possível.
Envoi oferece uma correção ainda mais radical à possível vaidade do poema. O tempo pode deformar, mas seus golpes cegos às vezes também alisam, juntam, produzem uma forma imprevista. Aquilo que realmente se inscreve na carne, porém, é mais fundo que a edição verbal. Diante do amor e de sua violência, o poema permanece murmúrio. Poucas passagens afastam com tanta clareza a ideia de que o rigor formal seja uma tentativa de substituir a vida pela arte. A arte ganha valor precisamente porque conhece a diferença entre trabalhar uma experiência e vencê-la.
Essa vulnerabilidade já estava em Memento Mori I. Por fora, nenhum sinal precisa denunciar a solidão; sob a pele, a separação entre o indivíduo e o mundo permanece radical. Mesmo o amor, capaz de reduzir temporariamente essa distância, existe num corpo cuja carne se corrói. A felicidade aparece como combustível volátil, real enquanto queima e incapaz de garantir sua continuação. O poema não a despreza por ser provisória. Ao contrário: sua precariedade é uma das condições de sua intensidade.
A forma regular do desaparecimento
Com o envelhecimento, a antiga disputa entre forma e acaso muda de escala. Já não se trata apenas de descobrir o que uma palavra inesperada pode fazer num soneto ou de perceber que a memória traduziu mal uma tarde do passado. O próprio instrumento que constrói formas começa a perder sua estabilidade. Em “Uma Doença”, o corpo não possui posição natural: mão, pé, tronco e membros formam constelações provisórias, nenhuma inteiramente necessária, confortável ou definitiva. A liberdade aparente dessas combinações encontra afinal uma única posição que não poderá ser corrigida. O poema fala da morte sem precisar engrandecê-la. Basta levar a lógica da provisoriedade corporal até o ponto em que a próxima mudança deixa de existir.
Nos “Oito sonetos entrópicos”, a matéria oferece uma perspectiva ainda menos sentimental. Ser e deixar de ser pertencem ao mesmo processo, e o escândalo talvez esteja menos em desaparecer do que em ter sido precisamente este corpo e esta consciência entre tantas configurações possíveis. A forma fixa, símbolo tradicional de permanência, é posta a serviço da entropia. Cada soneto fecha suas linhas ao redor de uma matéria que caminha para outro estado. Não há contradição mais produtiva: a forma luta contra a dispersão ao mesmo tempo que a descreve, e só consegue descrevê-la porque também terminará.
Memento Mori II reduz essa luta a um fenômeno elementar. A luz emerge da escuridão, dá corpo e cor às coisas, prende-se às aparências e, com força pequena, resiste ao conforto de apagar-se. A imagem permite compreender algo que atravessa boa parte dessa poesia. A resistência não precisa acreditar na vitória para ser resistência. A luz não precisa imaginar-se eterna para iluminar. O poema não precisa supor que derrotará a morte, corrigirá a memória ou explicará o real para continuar trabalhando.
Voltamos então a “Oficina”. Depois de tanto cálculo, o próprio fazer poético chega a uma afirmação desconcertante: é preciso escrever, embora não haja uma razão final capaz de justificar a necessidade e embora o resultado talvez não faça sentido. A frase não anula toda a precisão anterior. Dá-lhe sua medida. Se houvesse garantia de sentido, a forma seria apenas execução; se o mundo pudesse ser possuído pela linguagem, bastaria nomeá-lo corretamente; se amar assegurasse permanência, a perda seria um acidente corrigível; se a consciência dominasse o corpo, envelhecer seria questão administrativa. Nada disso acontece.
A desconfiança de Paulo Henriques Britto não termina, portanto, em descrença passiva. Ela produz trabalho. Desconfia-se do mistério e da ausência de mistério, da memória e de suas versões, do sublime e da piada que o rebaixa, da linguagem e do silêncio, do amor enquanto promessa de permanência e da solidão enquanto pretensão de autossuficiência. Desconfia-se até da forma — e justamente por isso se continua fazendo formas. Cada poema delimita por alguns instantes uma região dentro do acaso, reúne palavras que poderiam não ter se encontrado, constrói sua alvenaria de ar e sabe que ela não durará para sempre. O que a poesia oferece não é a derrota da desordem. É algo menor e talvez mais difícil: uma construção suficientemente precisa para que possamos olhar a desordem sem fingir que ela desapareceu.
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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

(…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso.…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O…
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(…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de…
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(…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas…
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I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice–versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos…
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Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase…