Mês: junho 2018
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Machado de Assis – Último Capítulo (excerto)

“Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato…
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Belchior – Comentários a Respeito de John
Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu…
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Joan Margarit – Discurso do Método

Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas…
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Idea Vilariño – Ou foram nove

Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida…
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Manuel António Pina – Lugares da infância

Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os…
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Paulo Henriques Britto – Queima de Arquivo

Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente…
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Eduardo Chirinos – O que meu pai realmente quer de mim

1Esta noite tive um sonho. Acompanhava meu paipor uma estrada de terra. Os dois íamos a cavaloe mal trocávamos uma palavra. Ao longe, avistava-sea sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoadodesconhecido e remoto. De repente, meu pai deteveseu cavalo e perguntou se eu sabia para onde íamos.Respondi que não. Então vamos bem, ele…
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Wislawa Szymborska – Gato num apartamento vazio

Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na…
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Manuel de Freitas – Grand Hotel København, 326

Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da…
