Tag: Tempus Fugit
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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas…
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Wislawa Szymborska -Retornos

Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica.…
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Antero de Quental – Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também…
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Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final,…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata…
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio…
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Cecília Meireles – De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
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Antonio Cicero – Cidade

Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e…
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de…