Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Maria do Rosário Pedreira – Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres –escrito, rasgado ou desenhado:na areia, no papel, na casca deuma árvore, na pele de um muro,no ar que atravessar de repentea tua voz, na terra apodrecidasobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/07/2019 Mais do que uma leitura,…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for mortaContinuará o jardim, o céu e o mar,E como hoje igualmente hão-de bailarAs quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomarEm que eu tantas vezes passei,Haverá longos poentes sobre o mar,Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho a mesma festa,Será…
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Louise Dupré – [cada poema é um outono]
![Louise Dupré – [cada poema é um outono]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/11/98146051-9429-4d24-9237-828c0999ff4e.jpg)
cada poema é um outono mais não o das belas frases só o outono desgrenhado nas folhagens semelhantes aos cabelos dos feiticeiros que entretem as crianças nas varandas escreves para atrair o sol para a lentidão de um bordo antes que a noite venha devorá-lo tudo se torna imagemna tua corrida contra a treva Mais…
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatórioe uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparenteCom o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãosainda escorrendo sangueUma pequena construção toda em pedracom divisões de tijolo e cal hidráulicae janelas abrindo para o valeCom o teu úteroCom a…
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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, jáos pássaros tinham emigrado para além dos mares,o campo ficava em longos silênciosque só a passagem dos rebanhos, a caminhodo matadouro, cortava num tropel que ecoavaainda, depois da paisagem, com os gritosdo pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvensquando começavam as primeiras chuvas, e podiaouvir o…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
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Manuel António Pina – Café do molhe
Perguntavas-me(ou talvez não tenhas sidotu, mas só a tinaquele tempo eu ouvia) por que a poesia,e não outra coisa qualquer:a filosofia, o futebol, alguma mulher?Eu não sabia que a resposta estavanuma certa estrofe deum certo poema deFrei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)conhecia de cor,em castelhano e tudo.Porém se o soubesse de…
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Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deusenquanto minha mãe estendia roupae o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempoera muito próxima da dos meninose de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deusapenas sei que Deus continuaa jogar com outros meninos e que no Outono quando saio à…
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Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

é porque existe o desejo, o olfato, e o medo,e os vivos apaixonam-se por outros vivos,e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,e o quotidiano aí já não basta,porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável E não basta…