Categoria: Poesia em Língua Espanhola
-
Ernesto Pérez Vallejo – Com vista para dentro

Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade tão bom quanto os que ainda te restam explorar,nem sequer tenho estudos, e minha vozfalha diante de qualquer um que me olhe nos olhos.Minha tristeza se acentua aos domingos,mas na verdade é meu estado mais habitual.Às vezes sofro de ansiedade,também de raiva;tenho vinte segundos complicados nos…
-
Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram…
-
Rosario Castellanos – Desamor

“Desamor”, um poema de Rosario Castellanos que empreende uma exploração intensa do sentimento de alienação e do vazio emocional.
-
Joan Margarit – Último trem

Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo…
-
José Infante – Não sei se é um sonho

“Não sei se é um sonho”, um poema de José Infante sobre a sensação de estar dividido entre uma existência física e uma morte interior, explorando a complexidade da identidade e a luta com a realidade aparente.
-
Joan Margarit – A combinação

Sozinha entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus números giratóriosé a roleta em que já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nua em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me…
-
Federico Garcia Lorca – Pranto por Ignacio Sánchez Mejías

1. A captura e a morte Às cinco da tarde.Eram as cinco em ponto dessa tarde Um menino trouxe o lençol brancoàs cinco da tarde. Uma alcofa de cal já prevenidaàs cinco da tarde.O mais era só morte e apenas morteàs cinco da tarde. O vento arrebatou os algodõesàs cinco da tarde.E o óxido semeou…
-
Raúl Ferruz – Com os olhos bem abertos

Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não…
-
Juan Vicente Piqueras – Oração do descrente

O importante é rezar, não importa a quem,que as perguntas sejam as oraçõesdo pensamento, plantem sua sementeem nossa solidão, e não haja pazque, à força de insistir, seja capazde não existir, não tenha outro remédiosenão acudir à voz de quem a chama. Que deus não exista, acasoé razão para nele não crer? Deus é o…
-
Susana Cattaneo – Quando já não estiver…

Quem porá o pésobre a marca que o meu deixou?Quem olhará estas árvoresonde meus olhos deixaram sinais?Alguém ouvirá cantar um pássaroque será outro.Alguém respirará os mesmos pinheirosde um verde mais cansado.A vida será uma folha em brancoe não poderei timbrá-la com minha palavra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 05/05/2020 Mais…