Categoria: Poema
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José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas…
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Goliarda Sapienza – Para minha mãe

Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua…
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Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que…
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Walt Whitman – Canção de mim mesmo, 48

48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral…
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Joan Margarit – Ela

É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de…
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Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.