Categoria: Poema
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Miguel Torga – Rogo

Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De…
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Konstantinos Kaváfis – Um velho

No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja…
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Susan Mitchell – Os mortos

À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns…
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Dana Gioia – Obrigado por se lembrar de nós

As flores enviadas para cá por engano,assinadas com um nome que ninguém conhece,estão murchando. O que faremos?Nossa vizinha diz que não são para ela,e ninguém está perto de fazer aniversário.Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.Será que um de nós está tendo um caso?A princípio rimos, depois nos perguntamos. A íris foi a primeira a morrer,envolta…
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Ernesto Pérez Vallejo – Com vista para dentro

Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade tão bom quanto os que ainda te restam explorar,nem sequer tenho estudos, e minha vozfalha diante de qualquer um que me olhe nos olhos.Minha tristeza se acentua aos domingos,mas na verdade é meu estado mais habitual.Às vezes sofro de ansiedade,também de raiva;tenho vinte segundos complicados nos…
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Jeffrey Harrison – Nossa outra irmã

Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de…
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Robert Creeley – O fim

Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness.…
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David Mourão-Ferreira – Herança

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que…
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Konstantinos Kaváfis – Vozes

Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora.…