Mês: dezembro 2023
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Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro,escuto o tempo fluindono mais completo silêncio.Como remédio entornadoem camisa de doente;como na penugemde braço de namorada;como vento no cabelo,fluindo: fiquei mais moço.Já não tenho cicatriz.Vejo-me noutra cidade.Sem mar nem derivativo,o corpo era bem pequenopara tanta insubmissão.E tento fazer poesia,queimar casas, me esbaldarnada resolve: mas tudose resolveu em dez anos(memórias do smoking…
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Sharon Olds – As formas

Sempre tive a sensação de que minha mãe morreria por nós, se atiraria em um incêndio para nos tirar de lá, seus cabelos flamejando como uma auréola, pularia na água, seu corpo branco afundando e girando lentamente, o astronauta com seu tubo cortado, caindo na escuridão. Ela teria nos coberto com seu corpo, empurraria seus…
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Vinicius de Moraes – Cemitério Marinho

Tal como anjos em decúbitoA conversar com o céu baixinhoExistem cerca de cem túmulosNum lindo cemiteriozinhoQue eu, a passeio, descobriUm dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns murosErguidos ao sabor da morteEu nunca vi mortos tão purosMortos assim com tanta sorteAs lajes de cal como túnicasBrancas, e árabes; não púnicas. Sim, porque cemiteriozinhoNunca…
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Alberto Ríos – Cinco anos depois

Leia Cinco anos depois, de Alberto Ríos, um poema sensível sobre trauma, transformação pessoal e a reconstrução do sentido da vida.
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Paul Valéry – Cemitério Marinho

Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de…
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Walt Whitman – Uma meia-noite clara

Esta é tua hora, ó Alma, teu voo livre rumo ao inexprimível,Longe dos livros, da arte, o dia desfeito, a lição concluída,Tu emergindo plenamente, silente, contemplativa, refletindo sobre os temas que mais amas:A noite, o sono, a morte e as estrelas. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua…
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-lascedo porque nesse dia chegoutambém o frio e passamosa manhã falando do tempo.São duas, e me pergunto quedestino imprevisto as trouxea esta árvore precisa, a este exatolugar onde o tempo delascruza, como um enigma confuso,nosso tempo.À tarde, conversamos sobre elas:“Esta espera delas, imóvel, paciente – dizes -,não sei que imagem estranha e…
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Ama Codjoe – Por que deixei o Jardim

Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulhersuturada por um certo saber. Durante o dia eu me movia como se caminhar não fosse diferentede cair. Eu tinha os buracose o céu crivado. Eu não tinha nada. Mesmo de longe,eu conseguia ouvir o disco pulando.O tempo escorriadas mãos. Dos rostos. Na primeira vez em que um…
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Helder Moura Pereira – “Eu não tinha nada de felino…”

Eu não tinha nada de felino, tu sabiasque eu não tinha nada de felino.Nenhum de nós se admirou quandomedi mal a distância e falhei o salto.Enquanto ia no ar parecia que eraum salto bom, porém houve qualquercoisa que correu mal e caí com estrondono chão. Ninguém riu. Não era casopara rir. Grande ilusão ir pelo…
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Sean Borodale – Carta a um latifundiário

Aprendi certa noite o que é ter estrelassemeadas pela utilidade do corpo. O sol, ele se fora –cidades, redes, estradas chegavam a lugar nenhum. Montei minha capela de lona, deitei-me sob seu céue senti o quão profundamente eu era efêmero –ouvindo o capim branco dos brejos, os cavalos, o ar –. Naquela noite, ouvi com…