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Antonio Cicero – Cidade

Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e…
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Mário Chamie – Fantasma

Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Eu me Perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
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Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de…
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Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o…
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Algernon Charles Swinburne – Uma Despedida

Leia “Uma Despedida”, de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
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Carlos Drummond de Andrade – A Corrente

Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
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Jorge Luis Borges – O Suicida

Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.:…
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Giuseppe Ungaretti – Natal

Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
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Dante Milano – Ao Tempo

Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde…