Tag: Inês Dias
-
Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
-
John Mateer – s/ título

Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode…
-
Antonia Pozzi – Desalento

Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire…
-
Antonia Pozzi – Canto da Minha Nudez

Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no…
-
Amalia Bautista – Contra ‘Remedia Amoris’

Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura.…
-
Amalia Bautista – Nada Sabemos

Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se…
-
Amalia Bautista – Os Teus Olhos

Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con…
-
Antonia Pozzi – Grito

Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non…
-
Antonia Pozzi – Novembro

E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá…
-
Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida

A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de…