Tag: Deus
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Adélia Prado – A Treva

Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir,…
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Anne Sexton – Frágil Fio

Minha féé um grande pesopendurado num frágil fio,como a aranhasuspende seu bebê numa fina teia,como a videira,toda ramos e madeira,sustenta uvascomo globos oculares,como tantos anjosdançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisade muito fio para mantê-Lo ali,apenas uma veia fina,com sangue pulsando,e um pouco de amor.Como já se disse:O amor e a tossenão podem…
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Nicanor Parra – Perguntas e Respostas

então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de…
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Cassiano Ricardo – A Cidade Confusa

I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa,…
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Mia Couto – Falta de Reza

Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços:…
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Georg Trakl – De Profundis

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os…
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Jorge Luis Borges — Pátio

Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o…