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Wislawa Szymborska – Natureza-morta com um Balãozinho

Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde…
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Wislawa Szymborska – Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela…
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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas…
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Jaroslav Seifert – Vi Apenas uma Vez

Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. …
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Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um…
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Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
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William Shakespeare – Romeu e Julieta (excerto)

“Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele…
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Nicanor Parra – O que ganha um velho ao fazer ginástica?

e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach…
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Wislawa Szymborska -Retornos

Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica.…
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Jorge Luis Borges – Os Justos

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não…