Há um verso de “O desejo de ser generoso” que hoje parece ter mudado de temperatura. Depois de enumerar tudo aquilo que ama e que sabe condenado a desaparecer — a carne, o jardim, o campo, os lírios, a floresta, a própria terra —, Wendell Berry imagina sua vida como “uma paciente descida voluntária em direção à relva”. A notícia de sua morte, aos 92 anos, em sua casa de Port Royal, Kentucky, torna difícil reler essas palavras sem a impressão de que Berry passou boa parte da obra preparando-se não propriamente para morrer, mas para ocupar com dignidade o lugar que atribuía ao ser humano entre as demais coisas vivas.
Poeta, romancista, ensaísta, agricultor, conservacionista e uma das vozes mais obstinadas do pensamento agrário norte-americano, Berry construiu uma obra na qual literatura e maneira de viver dificilmente podem ser separadas. Nascido em 1934 no condado de Henry, voltou depois dos anos de formação e de alguma peregrinação acadêmica ao Kentucky de sua infância e instalou-se em Lanes Landing, perto de Port Royal, onde cultivou a terra por décadas. Escreveu dezenas de livros de poesia, ficção e ensaio e recebeu, entre outras distinções, a National Humanities Medal e o prêmio pelo conjunto da obra do National Book Critics Circle. Mas talvez sua verdadeira singularidade esteja menos nos prêmios do que na radical coerência com que passou uma vida inteira repetindo, sob formas diferentes, uma proposição incômoda: não existe sociedade humana saudável quando a terra, o trabalho, a comunidade e os mortos que nos precederam se tornam abstrações.
The Unsettling of America, de 1977, fez dessa convicção uma crítica frontal à industrialização e à concentração da agricultura. Berry enxergava na mecanização indiscriminada e na economia fundada no crescimento ilimitado não apenas um problema ambiental, mas uma forma de desmembramento: separar a comida de quem a produz, o trabalho de suas consequências, o homem da terra, o indivíduo da comunidade. Sua obra inteira pode ser lida como uma resistência a esse processo.
Seria, porém, diminuir Berry tratá-lo apenas como o poeta da ecologia. A natureza em seus melhores poemas não é cenário bucólico nem refúgio sentimental: é uma ordem muito mais antiga do que nós, dentro da qual a ansiedade humana recupera suas proporções. Em “A Paz das Coisas Selvagens“, talvez seu poema mais conhecido, o sujeito desperta durante a noite aterrorizado pelo futuro, inclusive pelo futuro dos filhos. Não encontra uma resposta intelectual para esse medo. Sai de casa. Há um pato sobre as águas, uma garça que se alimenta, água tranquila e estrelas invisíveis durante o dia. Nada disso resolve a história humana; muda apenas a escala em que ela é contemplada. É dessa mudança de escala que vem aquilo que o poema chama de graça do mundo.
É a mesma inteligência de “Aquilo de que precisamos está aqui“. Gansos atravessam o céu e desaparecem; ao observador não resta pedir outro mundo, mas aprender a habitar este — coração quieto, olhar claro. A espiritualidade de Berry raramente promete fuga. Sua transcendência é paradoxalmente terrestre: quanto mais profundamente se entra no mundo sensível, menos necessário parece procurar outro.
Essa serenidade nunca significou mansidão política. O mesmo poeta capaz de observar um pássaro ou uma folha com uma espécie de reverência franciscana podia ser feroz diante das abstrações pelas quais os homens legitimam a destruição. Em “Questionário“, a linguagem burocrática de um formulário é transformada numa máquina de constrangimento moral: mercado, civilização, patriotismo e segurança são submetidos à pergunta que seus discursos costumam ocultar — quanto estamos dispostos a destruir em nome deles?
E em “A Meta” essa crítica alcança uma formulação quase apocalíptica. Uma paisagem é arrasada para que se chegue à “meta”; florestas tornam-se tocos, rios são envenenados, montanhas descem para os vales, cidades tornam-se indistinguíveis umas das outras. Todos avançam, todos perseguem alguma coisa, e ninguém mais sabe de onde veio. Berry percebeu cedo uma das ironias fundamentais da modernidade: é possível chamar de progresso um movimento que destrói justamente os lugares aos quais alguém poderia desejar regressar.
Mas talvez seja na intimidade que sua poesia adquira sua força mais desarmada. “Eles se sentam juntos na varanda” contém quase nada: um casal idoso terminou de jantar, lavou dois pratos, dois copos, duas facas, dois garfos, duas colheres. Sentam-se lado a lado enquanto escurece. Depois de tantos anos, não precisam dizer aquilo que o outro já sabe. O único conhecimento que lhes permanece interditado é aquele que nenhum amor consegue adquirir antecipadamente: qual dos dois atravessará primeiro a porta escura e qual permanecerá algum tempo sentado sozinho. Poucos poemas dizem tanto sobre casamento, velhice e morte usando objetos tão pequenos.
Por isso é extraordinariamente difícil ler hoje “De “Sabbaths” (2001)”. Já velho, o poeta declara que a questão não é saber como estar morto — disso, diz ironicamente, conhece o suficiente “por prática” —, mas como estar vivo. E procura a resposta nas colinas gastas, numa pintura de Cézanne, numa pequena curruíra que canta como se estivesse viva para sempre naquele instante. Talvez esteja. A ressalva final contém uma poética inteira: a eternidade não como duração infinita, mas como presença absoluta.
O poema mais recentemente publicado de Berry no Singularidade, “10 de outubro“, parece agora carregar uma coincidência que não devemos forçar, mas tampouco precisamos ignorar. As folhas caem num rumor mais suave que a chuva; o verão vai se calando; as noites crescem. Berry sempre soube que morrer não era uma anomalia introduzida na natureza, mas parte do seu ritmo — como a folha, o animal, a estação, o corpo. A grande dificuldade humana estaria talvez em consentir nessa ordem sem deixar, por isso, de amar desesperadamente aquilo que passa.
Wendell Berry dedicou uma vida a combater uma ideia de liberdade fundada no desligamento. Para ele, ser livre não significava não dever nada a ninguém, mas descobrir as relações às quais valia a pena permanecer fiel: uma pessoa, uma comunidade, uma terra, uma memória, um ofício, um rio, uma árvore. Sua obra desconfiou de quase todas as promessas modernas de emancipação que começassem exigindo que esquecêssemos onde estávamos.
Agora Berry morreu. A terra que durante tanto tempo lhe ofereceu assunto, trabalho, resistência e medida recebe também o seu corpo. Permanecem os livros, naturalmente. Mas permanece sobretudo uma pergunta que talvez seja ainda mais difícil depois dele: como estar vivo?
Ele passou mais de setenta anos tentando responder.
Pequena antologia de despedida
“O desejo de ser generoso” — para abrir a antologia com a aceitação da mortalidade e essa extraordinária imagem da vida que desce, sem pressa, em direção à relva.
“A Paz das Coisas Selvagens” — o Berry mais imediatamente reconhecível: medo humano, água, animais, estrelas e a recuperação momentânea da liberdade dentro de uma ordem maior.
“Aquilo de que precisamos está aqui” — a formulação mais concentrada de sua espiritualidade terrestre.
“Eles se sentam juntos na varanda” — o amor transformado pela duração, pela rotina e pela consciência silenciosa de que um dos dois ficará.
“De “Sabbaths” (2001)” — indispensável hoje pela pergunta do poeta velho sobre como permanecer vivo.
“A Meta” — para que a homenagem não domestique Berry: aqui está o crítico feroz do progresso, da homogeneização e da destruição realizada em nome de abstrações.
“10 de outubro” — um fecho à altura de sua obra: folhas caindo, o verão que emudece, as noites que crescem. Não como alegoria da morte, mas como aquilo que Berry sempre pediu que víssemos: o mundo fazendo, silenciosamente, o que o mundo faz.
Para percorrer o conjunto de sua presença no site, o leitor pode visitar também a categoria “Wendell Berry” (https://singularidadepoetica.art/category/wendell-berry/).

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