Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Ferreira Gullar – Galo Galo

O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo.…
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Manuel Bandeira – Profundamente

Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o…
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Manuel Bandeira – Poema Só Para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas…
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Carlos Drummond de Andrade – A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio…
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José Paulo Paes – A Casa

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que…
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José Paulo Paes – Revisitação

Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar.…
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Ivan Junqueira – Morrer

Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil…
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Ivan Junqueira – Esse Punhado de Ossos

Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro…
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Ivan Junqueira – A Sagração dos Ossos

Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais…
