Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto.…
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Carlos Drummond de Andrade – Palavras no Mar

Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória…
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Carlos Drummond de Andrade – Noturno Oprimido

A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão.…
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Cassiano Ricardo – Vociferação

I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir…
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Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo,…
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Cassiano Ricardo – Etc.

Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma…
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Cassiano Ricardo – Missa de Corpo Presente

O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou…
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Ricardo Reis – Odes: 153 – Como este infante que alourado dorme

Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
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Ricardo Reis – Odes: 144 – Uns, com os olhos postos no passado,

Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é…
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Ricardo Reis – Odes: 105 – Quando, Lídia, vier o nosso Outono

Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.