Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Olavo Bilac – Nel Mezzo Del Camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus…
-
Machado de Assis – A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa…
-
Carlos Drummond de Andrade – Destruição

Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a…
-
Antonio Cicero – Huis Clos

Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos…
-
Antonio Cicero – História

A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze,…
-
Antonio Cicero – Nênia

A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite.…
-
Carlos Pena Filho – A Solidão e sua Porta

Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal…


