Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Joan Margarit – Professor Bonaventura Bassegoda

Lembrei-me de você, alto e corpulento,atrevido, sentimental. Na época, vocêera uma autoridade em Alicerces Profundos.Iniciava as aulas sempre assim:Senhores, bom dia.Hoje faz tantos anos, tantos mesese tantos dias que minha filha morreu.E costumava secar algumas lágrimas.Tínhamos vinte anos, mais ou menos,e o homem corpulento que você era,chorando durante a aula,nunca nos fez sorrir.Há quanto tempo…
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Joan Margarit – O presente e Forès

IManhã de verão nos campos.E Mariona, com seu avental,cavando no jardim, sob as rosas.Mònica — aos doze — anda de bicicletana estrada para a aldeia,e Joana e Carles — ambos com cinco — dormem.Reluz o ar do feriado:pela janela aberta para as árvores,entre as folhas sopradas pela brisa,escapa o piano das «Suites inglesas»,e de repente…
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Joan Margarit – Canção de ninar

Dorme, Joana.E que este «Loverman» — sombrio e trágicodo sax do teu irmão em Montjuïc —possa acompanhar-te por toda a eternidade pelos caminhosque só a música conhece.Dorme, Joana, dorme.E, se possível, não te esqueçasde teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste.Envelhecer será também reteras cores que um dia brilharam em teus olhos.Dorme,…
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Joan Margarit – Recordações militares

Ao crepúsculo, algumas centenasde homens em formação,silenciosos, imóveis, ouvíamosum solo de trompete. Além das noitesde sentinela sob a estreladaescuridão do acampamento,acho que do meu tempo sentirei faltade tudo o que não se podia comprar. Das sensaçõesao falar sobre a morte. E da honra.A honra, um céu distante. Deficiente, andavas de muletas:nunca houve para mim garota…
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Joan Margarit – Passageira

Na grande janela do aeroportoum amanhecer de luz branca, entre a névoa,se ergue diante da garota com um livroque ela nunca chegará a ler.Minha juventude está ali também,naquelas páginas de papel bíbliados russos do século dezenove.Um tomo grosso encadernado em couro. Natashas e Nastenkas, silenciosasamigas de quem aprendia esperar, na neve e na nevasca,uma acolhedora…
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Joan Margarit – Uma fotografia pendurada na parede

Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o…
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Joan Margarit – Uma história

Não digas nada, Joana,apenas escuta-o e não digas nada.Caminhávamos na chuvosamanhã pela cidade adormecida,e entrávamos lentamenteem uma via calçadaque não levava a lugar nenhum.Algumas crianças, com gritos e canções,queriam que nos aproximássemos do canal,para que víssemos sua casa refletida na água.Gostaste, lembra-te?,de observar as crianças. Quando partimossuas carinhas estavam grudadas nas vidraças,suas vozes dissipando-se na…
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Joan Margarit – Espaço e tempo

E de repente a casa ficou grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeirose seguimos por mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,exibem com mais relevo o teu vazio.Os móveis estão agora mais escuros.Descem pelas escadaso cálido balaústre que se lembrade tua pequena mão,e os degraus que…
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Joan Margarit – Noite de junho

Quando saí do cinema já fazia escuro.Naquele velho estacionamento, sem iluminação,subi a rampa áspera e sujaporque havia estacionado no terraço.Dentro de mim também era dura a ladeira:os primeiros dias sem ti.Mas ao chegar no topo, ao ar livre,um cálido silêncioenvolvia a sombra dos carros:os ladrilhos avermelhados, as gradesde ferro, singelas e delicadas,e os vasos com…
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Joan Margarit – Final

Teu enterro, na primavera: foi essaa mensagem final de tua bondade.Nada melhor em torno de ti do que o ruídodesta cidade e, em frente,a eternidade do mar.Que rude fachada a do Montjuïc: vaiaté onde o pensamento deseja. O carrinho sobe os caminhos de areiae os automóveis o seguem,fazendo crepitar o cascalho ao pédos ciprestes na…