Categoria: Poema
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Fleur Adcock – O Hospital Soho para Mulheres (IV)

Estou no supermercado, hesitante –nesta tarde, precisamente nela –entre os tomates, o queijo e os pães, coisas que uso como ingredientespara preparar meu jantar, e elascomem na cama suas refeições: Janet com seus grandes sardos seios,sua voz escocesa encoberta,que nunca esteve em um hospital, lá foi fazer alguns exames, veio,mas sua alta agora é incerta;na…
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Maria do Rosário Pedreira – Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres –escrito, rasgado ou desenhado:na areia, no papel, na casca deuma árvore, na pele de um muro,no ar que atravessar de repentea tua voz, na terra apodrecidasobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/07/2019 Mais do que uma leitura,…
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Roo Borson – Livrai-nos

Livrai-nos da noite,das infindáveis e sombriasrodovias, e dos oásisnéon dos postos de gasolina,do ronco dos motoresimortais após a meia-noite,quando o tempo perde o sentido,dos cafés da madrugada,suas tortas macabras,e do babado alaranjado noavental da garçonete,das cadeiras de plástico combinando,do laranja e do marrom e detodos os tons sobrenaturais,banindo-os de volta ao tubo de ensaio,livrai-nos deles,daqueles…
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Czeslaw Milosz – A queda

A morte de um homem é como a queda de uma poderosa naçãoQue teve valentes exércitos, capitães e profetas,E ricos portos e barcos em todos os mares,Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada,Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa,Sua terra que certa vez proveu de colheitas está saturada de…
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Adam Zagajewski – Tente louvar o mundo mutilado

Tente louvar o mundo mutilado.Lembre-se dos longos dias de junho,dos morangos silvestres e das gotas de vinho rosé.Das urtigas que metódicas invademas propriedades abandonadas dos exilados.Você deve louvar o mundo mutilado.Você observou os elegantes iates e navios;um deles tinha uma longa jornada pela frente,enquanto o salino esquecimento aguardava os demais.Você viu os refugiados indo a…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for mortaContinuará o jardim, o céu e o mar,E como hoje igualmente hão-de bailarAs quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomarEm que eu tantas vezes passei,Haverá longos poentes sobre o mar,Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho a mesma festa,Será…
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Ada Limón – Antes

Descalça, com um capacetevermelho reluzente, eu iana garupa da Harley do meu paiaos sete anos de idade.Antes do divórcio.Antes do novo apartamento.Antes do novo casamento.Antes da macieira.Antes das cerâmicas na lixeira.Antes da corrente do cachorro.Antes que todas as carpas fossem comidaspela grou. Antes da estradaentre nós, havia a estradaembaixo de nós, e eu era grande…
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Ian Hamilton – Fantasmas

O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTê-la vistoAspirando o…
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Konstantinos Kaváfis – Muros

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesarErgueram à minha volta altos muros de pedra. E agora aqui estou, em desespero, sem pensarnoutra coisa: o infortúnio a mente me depreda. E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!Quando os ergueram, mal notei os muros, esses. Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.Isolaram-me…
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Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…