Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou…
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Paulo Henriques Britto – De “Seis Sonetos Soturnos”

I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor…
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Affonso Romano de Sant’Anna – Vai, Ano Velho

Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant’Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista,…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.