Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a…
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Paulo Henriques Britto – Epílogo

Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto,…
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Paulo Henriques Britto – Balanços

II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa…
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Vinicius de Moraes – Soneto de Quarta Feira de Cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim…
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Paulo Henriques Britto – Mínima Poética

Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada).…
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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a…
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Paulo Henriques Britto – Biodiversidade

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando…
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único…