Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a…
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Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa —…
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Cecília Meireles – De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
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Ferreira Gullar – Os Mortos

os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
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Carlos Drummond de Andrade – Retrato de Família

Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores…
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Ferreira Gullar – Redundâncias

Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
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Ferreira Gullar – Visita

no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob…
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Ferreira Gullar – A Alegria

O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a…

