Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Mário Quintana – Pequeno Poema Didático

O tempo é indivisível. Dize,Qual o sentido do calendário?Tombam as folhas e fica a árvore,Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. MesmoA que se julga mais dispersaE pertence a um eterno diálogoA mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema,Todos os porres são o mesmo porre,Não é de uma vez…
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Amadeu Amaral – Névoa

Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve…Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça;branco sonho de amor, passará, como passapelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaçaque se evola e se esvai nas curvas que descreve.Fumaça de ilusão, força é que o vento a leve,força é…
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Lêdo Ivo – Epitalâmio

A terra cessa de girar, para que eu te ame.Não há mais Dia e Noite, meu amor.Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdadee as horas irrompem como vulcões.O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um instante,e os corpos giram,…
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Domingos Carvalho da Silva – Mensagem

Longe, muito longe, um país nos contempla.Um país de silício e saibro, de água salgada e solOnde os peixes não chegam, os corvos não assistem.Onde os náufragos se afogam no incêndiodo solitário diaeterno. Longe, muito longe, onde a areia refleteas escamas da lua;onde só os mortos vão beijar a praia,estaremos um dia. Nas impassíveis furnas…
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Thiago de Mello – O Morto

Qual a verdade que o mortoconheceu, além dos muros,e lhe fez cerrar os lábiosestrangulando a palavraporventura essencial?Enfim livre da cegueira,que paisagem contemploupara que o rosto lhe turvetão rude ruga de mágoa?Soube talvez que melhorfora mostrar-se de todo:desvelar inteira a face,seus amores e seus ódios,e não (de medo) exilar-seno recôncavo do sonho,onde fundava universosem que só…
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Angela Leite de Souza – Do Lado de Cá Dessas Rosas

Nem percebi quando me cobriramcom esta colcha rosa de rosasamorosamente.Dormia meu novo sonosem tranquilizantes, sem relógios:estou serena e não há pressa em acordar.Ser apenas, estar.Não me roem mais tristezas nem desejos,lateja leve leve uma saudade.Meu corpo vai não sendo, sou feliz.Livre do dever de viver e de burlara mortecompreendo: um é o avesso da outra,sua sombra,…
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Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta.Tia morta, irmão nascido morto.Primos mortos, amigo mortoAvô morto, mãe morta(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto.Noiva morta, amigas mortas.Chefe de trem morto, passageiro morto.Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho!Cão morto, passarinho morto.Roseira morta, laranjeiras mortas.Ar morto, enseada morta.Esperança, paciência, olhos, sono,…
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Carlos Drummond de Andrade – Noturno Oprimido

A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão.…