Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Cassiano Ricardo – Vociferação

I Homem em Adão. Homemem Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus?nós faremos d’Elenovamente o Autor de tudo:do peixe, da ave, da cobra, da maçã,do sapo, do rouxinol do sol. Oobrigaremos contudoa suar san-gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir fogo como nós, no circo queimando bocae estômago. Um Deusque nos socorra.Que não fuja; que morraem nós. Quando qualquer de nós morra. À semelhançade qualquer de nós. Deus mal-me- querDeus bem-me- quer )horizontal vertical( no leitona forca ou numbatiscafo. III Um Deusde cabeça pra…
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Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1 “Cristo, terá sidoem vão teu sacri-fício?vê, o sangue escorre,acre, no massacredas ruas.” Cristo espalmou amãocobrindo os olhoshorizontalmentepra não vera destruiçãodo ser 2 “Cristo,vê os pequeninosque tanto amasteagora garotosnos becoscomo ratos dentrode sapatosrotos.” Cristo escondeu,de novo, a face,como se chorassenão querendoque o vissemchorar. Gramática visuala de Cristo;“Não veré não ser visto.“ 3 “Cristo,ouve a imprecaçãoque…
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Cassiano Ricardo – Etc.

Existe tudo porque existo.Há porque vemos.(Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos.Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos,que adiantaria haver mundo?Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe.O que é eterno também não existe.A eternidade é uma forma de não existência. Ao menos para nós o…
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Cassiano Ricardo – Missa de Corpo Presente

O seu corpo tão alvo, o seu corpo presenteé a coisa mais ausente, é uma ilusãopensar que a rosa ou o fruto já colhidosainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio.Não obstante jovem, tem a mesma idadede todos os que morreram antes, ou mesmona mais remota origem babilônica.…
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Cassiano Ricardo – O Festim Terrestre

O olho de Polifemojá depois de arrancadoao gigante bêbado,foi posto,entre rosas carnosase lírios agudos,sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupilaacesa. E os doze convivas,— doze fomes irmãs, —todos ao mesmo tempo,simultâneos comofiguras de uma orquestra,vieram, graves, comero olhode Polifemo,em dourado molho. Eram só matériaexigindo a matéria.Bocas rubras de vinhonum banquete com algode mágicoe de…
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Cassiano Ricardo – Evocação dos Mortos

Um dia conversarei com os meus mortos.E todos os que morri (os muitos eus que eu fui)reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão,me contarão (sua) a minha história.Não obstante a tua gélida memória.Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente,agora juntos.Não acredito que aquele menino fui eu…Nem acreditarei que um…
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Ferreira Gullar – Galo Galo

O galono saguão quieto. Galo galode alarmante crista, guerreiro,medieval. De córneo bico eesporões, armadocontra a morte,passeia. Mede os passos. Pára.Inclina a cabeça coroadadentro do silêncio:— que faço entre coisas ?— de que me defendo ? Anda No saguão.O cimento esqueceo seu último passo. Galo: as penas queflorescem da carne silenciosae o duro bico e as…
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Carlos Drummond de Andrade – A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamenteuma estrada de Minas, pedregosa,e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatosque era pausado e seco; e aves pairassemno céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindona escuridão maior, vinda dos montese de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo…
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José Paulo Paes – Revisitação

Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrandojá não cavei em teu chãoos sete palmos regulamentarespara enterrar meus mortos?Não ficamos quites desde então? Por que insistesem acender toda noiteas luzes de tuas vitrinascom as mercadorias do sonhoa tão bom preço? Não é mais tempo de comprar.Logo será tempo de viajarpara não se sabe onde.Sabe-se…
