Mês: junho 2024
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Konstantinos Kaváfis – Prece

Um marujo o abismo do mar guardou consigo.Sem de nada saber, a mãe coloca um círio aceso diante da Virgem, um longo círio,para que volte logo, a salvo dos perigos. No bramido dos ventos põe o seu ouvido;mas, enquanto ela reza e faz o seu pedido, sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,que o…
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Wilfred Owen – Futilidade

Coloquem-no à luz do sol… Em casaSeu toque gentil o acordava com a lembrançaDe campos ainda por plantar…O sol o acordou sempre, até na França,Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está.Se alguma coisa pode acorda-lo agora,Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda sementes…E que há muito acordou a…
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Patrick Philips – Matinê

Após a biópsia,após a cintilografia óssea,após a consulta e o choro, por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,nem mesmo minha irmã,porque acontece que eles tinham ido ao cinema.Passava uma tragédia,um épico, mas no fim eles foram de comédia,com suas cocase pipocas, a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,o velho maridocobrindo o ouvido com a mão, enquanto…
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Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvidade que o melhor mesmo é ficar sentado na cozinha,ainda que seja a cozinha da insônia.Ali faz calor, você prepara alguma coisa, bebe vinhoe olha pela janela a eternidade familiar.Por que se atormentar querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,sabendo que a…
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Tung-Hui Hu – Como cuidar?

Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,antes dos hospitais, antes da ala oncológica, dos cuidados intensivos, das urgências. Naquele tempo, tudo era urgente, amarrarmãos e pés, imobilizar o corpoantes que pudesse se transformar em cadáver. Agoraé mais fácil, olhar fotografias em vez disso, uma dele em sua camisa de trabalho, colarinho desgastado,esticada sobre…
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José Luis García Martín – Em algum lugar

Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol…
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Louise Dupré – [cada poema é um outono]
![Louise Dupré – [cada poema é um outono]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/11/98146051-9429-4d24-9237-828c0999ff4e.jpg)
cada poema é um outono mais não o das belas frases só o outono desgrenhado nas folhagens semelhantes aos cabelos dos feiticeiros que entretem as crianças nas varandas escreves para atrair o sol para a lentidão de um bordo antes que a noite venha devorá-lo tudo se torna imagemna tua corrida contra a treva Mais…
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Marie Howe – A menina

Tão perto do fim da minha vida fértil esem filhos — se eu pudesse me lembrar de um dia em que fui inteiramente meninae ainda não mulher — mas não acho que tenha havido um dia assim para mim. Quando olho para a menina que fui, escorrendo em seu maiô,ou andando de bicicleta, pedalando com…
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Juan Vicente Piqueras – Os Deuses Dentro

Os deuses sabem mais e melhor que nóso que nos faz falta. Pedimos-lhes um filhoe nos mandam um lobo, e não os compreendemos. A vida a cada dia os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como bem disse o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo, seu último templo em ruínas,seu…