Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira…
-
Inês Dias – Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro…
-
Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu,…
-
Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas…
-
Raul de Carvalho – Amiúde

No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações…
-
João Miguel Fernandes Jorge – Presépio Animado da Ribeira Grande

Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho.…
-
Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a…
-
A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas

1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu…
-
Eugénio de Andrade – Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
