Categoria: Poema
-
Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido

Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com…
-
Miriam Reyes – Imóvel

abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua…
-
Joan Margarit – Um pobre instante

A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?…
-
Josep M. Rodríguez – Equação

De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é…
-
Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo…
-
Jorge Luis Borges – Elogio da Sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante,…
-
Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há…


