Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Ferreira Gullar – Os Mortos

os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
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Carlos Drummond de Andrade – Retrato de Família

Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores…
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Ferreira Gullar – Redundâncias

Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
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Ferreira Gullar – A Alegria

O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a…
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Antonio Cicero – Cidade

Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e…
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Jorge Wanderley – Acerto de Contas

quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima …
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Carlos Drummond de Andrade – Fragilidade

Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo…
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Carlos Drummond de Andrade – Ontem

Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
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Carlos Drummond de Andrade – Viagem na Família

A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro?…
