Mês: janeiro 2017
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto,…
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Paulo Henriques Britto – Balanços

II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa…
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Vinicius de Moraes – Soneto de Quarta Feira de Cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim…
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Paulo Henriques Britto – Mínima Poética

Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada).…
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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a…
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Paulo Henriques Britto – Biodiversidade

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando…
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único…
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou…