Categoria: Ivan Junqueira
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Ivan Junqueira – Vésperas

A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o…
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Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem…
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Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável…
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Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que…
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas…
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Ivan Junqueira – Hoje

A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
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Ivan Junqueira – No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos…
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Ivan Junqueira – de “Três Meditações na Corda Lírica”

Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que…
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Ivan Junqueira – Lição

À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce…
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Ivan Junqueira – Antes que o Sol se Ponha

Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não…