Categoria: Joana – Joan Margarit
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Joan Margarit – Última caminhada

Já não comia. Caíam meus cabelos.Ficava o dia todo de olhos fechados.Mas saí para a varanda de madrugadae alguém da calçada, sob uma árvore,falou-me com uma voz como a de minha mãe,que dormia em sua cama ao lado da minha.De repente, não estava mais cansadae desci sem muletas até a rua.Nunca fora capaz de andar…
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Joan Margarit – Mari

Ela te acompanhou por muito tempo,todas as tardes, na natação e na escola.Foi tua amiga e também a confidentedaquela dolorosa adolescênciade lua de hospital e das tardes azuisda lenta juventude. Foi a tua Mari,as últimas visitas, quando teus olhospesavam-te interiormente como a morteque apagou todo o brilho por trás das friasvidraças embaçadas de passado.Tu e…
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Joan Margarit – Súplica

Desta manhã invernal, morna e aprazível,por favor, não te vás.Fica submersa neste pátiocomo se houvesses naufragadodentro de nossa vida.Sob o loureiro, entre as aspidistrasde folhas românticas, verdes e largas,por favor, não te vás, não te vás. Tudo está preparado para ti.Fica, por favor, e não te vás.Diz-me se te lembras: preciso dealgumas palavras com a…
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Joan Margarit – Pilhagem

Hoje és outra.A morte, como um vento do deserto,sopra e abandona teu rostoressecado pela morfina.Passa uma andorinha com seu rápido vooe reluz ao cruzar a luz laranjada janela aberta de teu quarto.Talvez com teu voo também cheguesao claro terraço onde tua voz risonhaprateava o crepúsculo. Foste-te e só restaum corpo que uma pilhagem devastoue que…
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Joan Margarit – Mãe e filha

Hoje tuas mãos são todo o passado dela:há trinta anos de amor no fundo de tuas palmas.Velaste-a durante toda a noite:deitas-te na cama ao lado dela,teu peito quente contra suas costas,seus cansados cabelos em teu rosto.Tu a abraças murmurando em seu ouvidoe, enquanto isso, a acaricias.São as últimas noites, e sentes o calorde seu esgotado…
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Joan Margarit – Água

Poderíamos falar da água ou da menina,porque a água e a menina permanecemjuntas na minha memória.A menina é a água, é a liberdadede um dorso que tem,sob a pele, a rigidez de um tirante.A ternura da água salvou suas pernas débeis:vejo novamente o azul das piscinasna temperatura de sua alma,tão distantes agora nos invernosque se…
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Joan Margarit – História natural

Meu trato com a morte.Ouço-a colidir como uma moscana luz da vidraça, e posso vê-laascender ao céu vespertinoem seu sereno anil. Encontro como médico durante a protocolarvisita noturna.Não quero falar e concordo com tudo o que ele diz.Somos parte do fundo escurode uma pintura em que surgea janela iluminada deste quartoonde nossa Joana está chegando…
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Joan Margarit – Oceano Atlântico, 1956

Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia…
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Joan Margarit – A felicidade

O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes…
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Joan Margarit – Sant Just, 2 de março de 2001

Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos…