Categoria: Nuno Júdice
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Nuno Júdice – Epidemia

Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a…
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Nuno Júdice – Fábula industrial

As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que…
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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando…
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Nuno Júdice – É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a…
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Nuno Júdice – Poema (Arredores)

A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas…
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Nuno Júdice – Natal

Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única…
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Nuno Júdice – O Eterno Retorno

Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só…
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com…
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Nuno Júdice – Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante…
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Nuno Júdice – Carpe Diem

Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome…