Categoria: Rainer Maria Rilke
Rainer Maria Rilke e a gravidade do mundo
A estátua não tem cabeça. Faltam-lhe precisamente os olhos e, no entanto, ela vê. Em “Torso arcaico de Apolo”, Rilke começa diante de uma mutilação: o rosto se perdeu, as pupilas que um dia pertenceram à figura já não existem. Seria razoável imaginar que o observador desfrutasse, assim, de uma vantagem absoluta. Ele pode examinar a pedra; a pedra não pode examiná-lo. Mas é justamente essa segurança que o poema destrói. A luz parece ter recuado da cabeça ausente para todo o corpo, o torso brilha de dentro para fora, as curvas da pedra ganham uma potência quase animal e, ao final, já não existe um único ponto da escultura que não esteja olhando para quem a contempla. A obra de arte deixa de ser objeto. O espectador, subitamente exposto, recebe uma ordem: “Precisas mudar de vida.”
Há muito da poesia de Rainer Maria Rilke nessa inversão. Não apenas porque seus Novos Poemas, escritos em grande parte no período parisiense e marcados pela convivência artística com Auguste Rodin, concentraram-se intensamente em animais, objetos, esculturas e obras de arte. O movimento é mais profundo. Olhar alguma coisa com atenção suficiente significa correr o risco de perder a posição confortável daquele que apenas olha. A coisa começa a adquirir uma gravidade própria. Não está mais ali para confirmar nossos sentimentos, ilustrar uma ideia ou servir de metáfora para alguma experiência humana anterior. Resiste. E dessa resistência nasce uma das maiores exigências da poesia de Rilke: deixar que o mundo exista com uma intensidade que não depende de nós.
Quando a coisa deixa de servir
É tentador chamar poemas como “A Pantera” de poemas simbólicos. A jaula representaria a opressão; o animal, a força vital aprisionada; as grades, os limites impostos à existência. Nada disso é absurdo, mas começar por aí é perder justamente aquilo que o poema faz melhor. Rilke não apresenta primeiro uma ideia de prisão para depois procurar um animal que a encarne. Permanece diante da pantera até que seu corpo, seu passo e sobretudo seu olhar imponham uma experiência que ainda não recebeu nome.
O poema acompanha três movimentos. Primeiro, o olhar fatigado pela repetição das grades já não consegue reter o mundo. Depois, aparece o corpo: uma força imensa continua circulando dentro de um espaço mínimo, numa dança cujo centro guarda uma vontade entorpecida. Por fim, raramente, a pupila se abre, uma imagem consegue entrar e percorre a tensão dos membros — apenas para desaparecer quando chega ao coração. A prisão mais terrível já não é simplesmente a grade material. É o fato de o mundo ter praticamente deixado de alcançar a criatura.
O efeito se torna ainda mais perturbador quando aproximamos a pantera do torso de Apolo. Em “A Pantera”, existe um olho vivo que quase já não vê; em “Torso arcaico de Apolo”, não existem olhos e, contudo, toda a pedra vê. Não é um jogo engenhoso de oposições. Os dois poemas perguntam o que significa verdadeiramente estar diante de alguma coisa. A visão biológica pode permanecer intacta e o mundo desaparecer; uma pedra mutilada pode não possuir órgãos e ainda assim devolver ao observador uma presença tão intensa que o obriga a rever a própria existência.
Em “Fonte Romana”, a transformação é mais silenciosa. Duas bacias recebem e entregam água; uma superfície mostra à outra o céu por trás do verde e da sombra; círculos se formam dentro de círculos; a água desce sem nostalgia e termina num último espelho. Não há personagem humano nem moral anunciada. O poema parece desejar a mesma espécie de autonomia da fonte: cada verso recebe alguma coisa do anterior e a entrega ao seguinte, num circuito em que forma, movimento e matéria quase coincidem.
Foi sobretudo nesse período de Rilke que a crítica passou a falar nos Dinggedichte, os “poemas-coisa”: composições em que a atenção ao objeto não pretende simplesmente descrevê-lo, mas construir no próprio poema uma presença verbal tão concentrada quanto aquilo que foi contemplado. A influência de Rodin importa aqui menos como curiosidade biográfica do que como aprendizado do olhar e do trabalho: uma escultura não explica o corpo; dá-lhe forma. De modo semelhante, o poema não procura traduzir imediatamente a coisa em significado. Sustenta-a diante de nós até que nossa necessidade de dominá-la comece a ceder.
O mundo não é paisagem
Essa gravidade das coisas impede que a natureza, em Rilke, se transforme facilmente em decoração lírica. Em “Dia de Outono”, o verão chegou à plenitude e precisa terminar. As frutas devem amadurecer, o vinho adquirir a última doçura, as sombras avançar sobre os relógios de sol. Até aqui, poderíamos estar diante de uma bela descrição sazonal. Mas a mudança da estação inclui também uma sentença humana: quem não possui casa já não a encontrará; quem está sozinho permanecerá acordado, lendo, escrevendo cartas e percorrendo ruas enquanto as folhas caem.
A paisagem não reflete simplesmente uma solidão que já existia dentro de alguém. O outono é um acontecimento do mundo ao qual a vida humana também pertence. A fruta amadurece, o vinho se adensa, a folha cai, a sombra cresce, a pessoa sem casa continua sem casa. Rilke não separa com facilidade aquilo que chamamos de “interior” e “exterior”. A estação não possui sentimentos humanos, mas modifica as condições sob as quais os sentimentos existem.
Essa continuidade entre sujeito e mundo chega a uma formulação extrema em “A Morte do Poeta”. Depois da morte, descobre-se que aquilo que cercava o poeta — sombras, prados, água — estava de algum modo conjugado com ele. Seu rosto não terminava nos limites do rosto: o mundo que percebera durante a vida também participava de sua forma. Quando os sentidos se retiram, alguma conexão essencial se rompe, e as coisas parecem ainda rodear o morto como se procurassem aquilo que antes as recebia.
Essa ideia ajuda a compreender o título deste editorial. A “gravidade do mundo” não significa que Rilke seja apenas um poeta solene ou que sua obra esteja sempre carregada de transcendência. Significa que aquilo que existe possui peso próprio. Uma fonte, um animal, uma fruta, uma estátua, um rosto amado e um corpo morto não são intercambiáveis como símbolos destinados a falar de nós. Cada coisa impõe uma forma particular de atenção e, ao fazê-lo, modifica quem se aproxima.
A solidão não fica dentro de ninguém
Até a solidão perde, nessa poesia, o caráter de propriedade privada. Em “Solidão”, ela se comporta como água: ergue-se de regiões distantes, sobe ao céu, cai sobre a cidade, percorre ruas e acompanha os rios. Os corpos que não encontraram aquilo que procuravam se separam ao amanhecer; pessoas que se odeiam precisam dormir na mesma cama. A solidão não está escondida numa consciência individual. Torna-se clima, circulação, matéria que passa por diferentes vidas.
É um poema particularmente importante porque desfaz uma imagem simplificada de Rilke como poeta do isolamento voluntário, recolhido numa interioridade superior ao mundo. Sua solidão pode ser fecunda, mas não é impermeável. Em “Hora Grave”, a experiência individual se abre de maneira ainda mais estranha: alguém que chora em algum lugar do mundo chora “por mim”; alguém que ri na noite ri de mim; quem caminha vem a mim; quem morre olha para mim. Não há relação causal entre essas pessoas desconhecidas. O poema inventa, contudo, uma espécie de correspondência subterrânea entre existências que jamais se encontrarão.
A afirmação poderia soar mística se Rilke a transformasse numa doutrina de unidade universal. O poema é mais inquietante porque não explica nada. O desconhecido continua desconhecido. A pessoa que morre em algum lugar não ganha nome, rosto ou biografia; tampouco sabemos por que sua morte deveria olhar para esta outra vida. O que aparece é uma intuição de pertencimento: talvez nenhuma experiência seja inteiramente privada porque o simples fato de acontecer no mundo a coloca dentro de uma realidade compartilhada.
Em “Para recitar antes de adormecer”, a aproximação ganha uma forma doméstica. A voz deseja cantar para dentro de alguém, acompanhar seu sono e seu despertar, escutar simultaneamente o interior e o exterior — a pessoa, o mundo, a floresta, os relógios. Amar, nesse contexto, não significa fechar duas pessoas contra tudo o que existe. A intimidade se torna justamente um modo de escutar mais mundo.
Amar é suportar o excesso
Isso se torna evidente em “O Mundo Estava no Rosto da Amada”. O título poderia sugerir a velha idealização amorosa segundo a qual o ser amado concentra toda a realidade. Mas o poema não se detém nessa plenitude. A voz pergunta por que não bebeu o mundo quando o encontrou naquele rosto; logo se corrige: bebeu, e com enorme sede. O problema é que também estava repleta de mundo e, ao beber, transbordou.
A amada não serve para reduzir o universo a uma pessoa. O amor fracassa justamente porque há mundo demais nos dois lados do encontro. Aquele que deseja possuir descobre que ele próprio não é um recipiente vazio, e a proximidade absoluta se revela impossível não por escassez, mas por excesso. Esse movimento é característico de Rilke: aquilo que inicialmente parece oferecer uma união perfeita recupera sua distância no instante seguinte.
“Tira-me a luz dos olhos” parece, à primeira vista, seguir a direção contrária. O poema imagina uma devoção capaz de sobreviver à perda dos olhos, dos ouvidos, dos pés, da boca, dos braços, do coração e até do cérebro. Cada órgão retirado encontra uma substituição: o coração poderá tocar, o cérebro bater, o sangue carregar a presença amada. O amor parece espalhar-se pelo corpo inteiro precisamente à medida que o corpo é desfeito.
Mas essa imagem de permanência não é uma promessa de posse. Quanto mais se retiram os meios concretos do encontro, mais a amada se torna algo que circula dentro daquele que fala sem poder ser agarrado por um único órgão. O poema leva a devoção ao limite em que já não sabemos distinguir presença, memória e desejo. Amar alguém significa descobrir que aquilo que nos liga ao outro não se deixa localizar.
Essa dificuldade chega à morte em “A Morte da Amada”. Antes da perda, a morte era para a figura do poema apenas aquilo que todos sabem: algo que toma uma pessoa e a faz desaparecer. Depois, a experiência muda de natureza. A amada não parece simplesmente arrancada de seu mundo; desprende-se suavemente do olhar e entra numa região que, através dela, começa a tornar os mortos familiares. O vivo passa a reconhecer naquele território desconhecido uma espécie de parentesco.
Rilke recusa aqui uma das tentações mais comuns da elegia: transformar a pessoa perdida em propriedade definitiva da memória. A amada modifica o mundo dos mortos justamente porque já não está disponível ao olhar de quem a amava. A fidelidade começa onde a posse termina.
O corpo depois do nome
Essa recusa de domesticar a morte se torna quase brutal em “Morgue”. Os corpos estão diante de nós, preparados por mãos profissionais. Procura-se um nome num bolso, limpa-se a boca, ajeita-se a barba para que os cadáveres não provoquem repulsa nos circunstantes. São gestos destinados a devolver alguma ordem humana ao que aconteceu. Mas não existe gesto capaz de completar a cena. Algo continua faltando “para o fim”. Os olhos, ocultos sob as pálpebras, inverteram-se e agora olham apenas para dentro.
É difícil imaginar contraste maior com “Torso arcaico de Apolo”. A pedra sem olhos olha para fora e nos atinge; os olhos dos mortos, ainda existentes, voltaram-se para dentro e já não podem ser alcançados. Em ambos os casos, contudo, perde-se a supremacia do observador. Não dominamos a estátua porque ela nos devolve o olhar; não dominamos os cadáveres porque aquilo que neles aconteceu já escapou completamente à nossa perspectiva.
“A Morte do Poeta” acrescenta outra dimensão. Enquanto vivo, o poeta havia incorporado o mundo ao próprio rosto; morto, deixa em torno de si aquilo que antes atravessava seus sentidos. Não se trata apenas de dizer que um artista morre. O que morre é também uma determinada possibilidade de relação entre as coisas — a forma singular pela qual sombras, prados e água haviam sido recebidos por aquela consciência.
E, no entanto, Rilke não concede à morte a palavra final com a facilidade esperada. Em “Conclusão”, a morte é grande e nós somos sua presa, mas há um pequeno escândalo dentro dessa soberania: quando os vivos riem em meio à correnteza, é a morte que chora de surpresa. A brevidade do poema produz uma inversão quase humorística. A morte vencerá; ainda assim, enquanto a vida acontece, alguma coisa escapa ao comportamento esperado da presa.
O que permanece precisa transformar-se
Se os Novos Poemas ensinam a permanecer diante das coisas, a obra posterior de Rilke torna cada vez mais intensa outra pergunta: como preservar aquilo que existe sem imobilizá-lo? Nos Sonetos a Orfeu, escritos em 1922, o canto aparece ligado à metamorfose. Orfeu não salva as coisas tornando-as permanentes como objetos de museu; sua música permite que passem de uma forma a outra. O ciclo nasce também sob o signo de uma morte — a de Wera Ouckama Knoop — e transforma a memória da jovem dançarina numa reflexão muito mais ampla sobre movimento, canto, corpo e mudança.
Esse impulso já pode ser ouvido em “A nós nos cabe andar”. A pressa é chamada de perda; velocidade e voo não oferecem por si mesmos virtude alguma; o poema termina aproximando quietude, escuridão e claridade, livro e flor. Não é uma simples defesa da imobilidade. Andar continua sendo nossa condição. A questão é atravessar o tempo sem reduzir a vida à velocidade com que o atravessamos.
É nesse ponto que se deve chegar às Elegias de Duíno — e também onde este editorial deve parar diante delas. As dez elegias pertencem a outra escala de construção e exigem leitura própria, como obra integral. Nelas reaparecem muitas tensões que já estavam espalhadas pelos poemas anteriores — o olhar, os animais, os mortos, o amor, a transitoriedade, a transformação, a relação entre o visível e o invisível —, mas organizadas numa arquitetura que não convém reduzir a um capítulo da categoria geral.
O caminho até essa obra, porém, mostra algo importante. O Rilke das grandes figuras — o Anjo, Orfeu, o invisível — não substitui o poeta da pantera, da fonte, da fruta madura, do cadáver na morgue ou da pedra mutilada. A ambição metafísica de sua poesia não nasce de um afastamento das coisas, mas de uma atenção radical a elas. É porque o mundo visível possui peso que se torna possível perguntar o que nele excede o visível.
Talvez seja essa a razão de Rilke continuar sendo tão facilmente citado e tão dificilmente reduzido às frases pelas quais ficou célebre. “Precisas mudar de vida” pode sobreviver como máxima; separada do torso, porém, perde quase tudo. A força da sentença vem da longa contemplação da pedra que a antecede. Não é um poeta oferecendo conselho ao leitor. É uma coisa vista com tamanha intensidade que, ao final, parece ter adquirido o direito de falar.
A gravidade do mundo começa exatamente aí. Não significa que tudo seja solene, nem que cada objeto esconda uma transcendência pronta para ser decifrada. Significa reconhecer que aquilo que está diante de nós não termina na utilidade que lhe atribuímos, no símbolo que inventamos ou no sentimento que projetamos sobre ele. A pantera continua andando depois de nossa interpretação. A água continua descendo de uma bacia para outra. O morto retirou seu olhar. A fruta amadurece. A folha cai. O rosto amado contém um mundo que não conseguimos beber sem transbordar.
Ler Rilke é experimentar repetidamente essa perda de soberania. Olhamos, e alguma coisa nos olha. Amamos, e o outro excede aquilo que podemos guardar. Nomeamos a morte, e o corpo permanece diante do nome. Tentamos fixar o mundo num poema, e o poema, se realmente o recebeu, obriga-nos a devolvê-lo transformado. A poesia não retira peso às coisas para que possamos carregá-las. Ensina-nos, antes, a sentir o peso que já possuíam.
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Rainer Maria Rilke – A Pantera (em 3 traduções)

DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von…
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Rainer Maria Rilke – Dia de Outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e…
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Rainer Maria Rilke – A Pantera (em 3 traduções)

A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande…
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Rainer Maria Rilke – A Morte do Poeta

Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o…